Cadernos do Cep – vol. 1

Uma antologia de poemas em volumes

editada pelos organizadores do CEP 20.000.

Para quem não tem o caderninho número 1 em mãos,

temos agora o material digitalizado.

Com poemas de: Fernanda Morse, Ana Fainguelernt, Bernardo Valença, Maria Isabel Iorio e Rafael Zacca.

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destruição do boy


eu não te suporto e não suporto

a energia gasta em preencher
vazios que você me deixa
eu não te suporto tampouco teu corpo
te suporta porque é de plástico
e rejeita
a tessitura dos eventos, da vida
regurgita
tão grande oferta
que vem de dentro expondo
até o osso
porque teu corpo é uma cova e não posso mais morrer ali
num destampado de pedra tão oco
é sempre tão pouco exceto quando viramos a chave
ao contrário
quando tontos nos dispomos ao espelho
e observamos a casca a carapaça
do teu esqueleto quase tão próximo
do meu mas não!
outra vez o engano eu já não sei
da matéria que me contempla?
e não te suporto
porque não é inteiro
entorta
com um mínimo tropeço
empena
como uma porta
vagabunda
que insiste em ficar
entreaberta

bom retiro

agora serei leve
ganharei o ar
e o ruído
a fissura
destas paredes novas
distrai o vazio
destas mobílias todas
estranhas
e acordar dentro delas —
a solidão
destoa
de toda a proposta
da sorte, do peixe chinês
inquieto, pendurado
na varanda
um teto todo meu e no banco
um fantasma
na fronha
um fantasma
mas às vezes
por dentro acontece de ser
dia, como é lá fora
e brilha
entre os cacos de espelho na calçada
uma vontade  de existir e voltar
à rua e ver
velhinhos coreanos
lambendo uma casquinha
de baunilha
eles só ficam ali
calados
e entre uma lambida e outra
o dia passa
sem ele
por aqui

caminhada

 

estamos no meio do caminho
um homem segue com a sua carroça
ele está cansado
eu estou cansada
procuro um passo
que não me custe tanto as pernas
(não posso mais sentir o peso da minha própria cabeça)
o sol a pino
ele já está longe
só agora vejo
que se arrasta apenas por uma roda
com a outra estourada — o pneu murcho
gasto
e por cima a sua casca
esgarçada
não ouço mais o que dizemos
pesa
estaríamos assim tão derrotados?
ou desertamos
e perdemos a guerra?
agora uma mulher dá banho em seu bebê
no chafariz da praça
a água é suja?
lava a cabeça, os cabelos, ele sabe
como ela ama lavar seus cabelos
você sabe?
a espuma nos ombros
escorrendo pelos braços
a sua pele! como é bom
tocar a sua cabeça — ele confia
mesmo que o chafariz lhe confunda
com tantas águas
lembra
do banho de xampu?
que espetáculo é Elizabeth
lavando os cabelos de Lota!
estrelas, uma constelação de espumas
e o ato é de amor, amor
lembra?
você já falou — lava meus cabelos
coça as minhas costas
e fechou os olhos e se virou
e se agachou e se entregou a mim
como a criança do chafariz
está nas mãos de sua mãe —
agora ele se enrosca
está suspenso no ar, com frio
quando tocar o chão
vai estar quente de novo
e um pano — nem tão macio —
lhe cobrirá a pele.

 

pra que recauchutar
essas memórias fumegantes
se a noite já está acesa
e acontece
que tudo isso vai matando
de dentro pra fora até virar
socos na porta
do banheiro e dos carros na rua que não são
o teu e na namorada que não é
mais a tua — a atual
não presta — eu
saberia
me ajoelhar nessa reza
ou gritar mais um pouco o suficiente
para não ouvir nada
o som da noite é estridente e salva
só a fúria
que pressente todas as chegadas
e vou relando no chão torto e amarelo
dando a cara a tapa a outros mortais
tão mortais que só assumem um delírio cênico
não
este buraco se cava na altura do interior
e o delírio aqui é uma realidade que atravessa o dia
o ar
as palavras
em toda a sua densidade emocional
(como reuben já dizia)
e come consome
tudo o que não deveria — a pose
a casca se rompe e o que salta
é essa coisa que ninguém aguenta
essa coisa mata

uma estrofe de “More or less love poems”, Diane di Prima

*
se você me sacanear eu te sacaneio
pra já, boneca
conheço os seus joguinhos

se você me sacanear eu já saquei
como tem bocas melhores que a sua por aí
corpos bem mais suingados
cenas mais loucas que essa.

se você me sacanear não vai adiantar nada.

*
In case you put me down I put you down
already, doll
I know the games you play

In case you put me down I got it figured
how there are better mouths than yours
more swinging bodies
wilder scenes than this.

In case you put me down it won’t help much.

tramados

pensa
na dispersão do mercúrio
intocável e quase
fatal
quando se espatifa este termômetro passado
estamos tramados marina diz que estamos tramados
eu não duvidaria das palavras de uma cartomante
em suas cartas turvas
a água suja como o jogo
ou a picada de um escorpião

isso é de uma dor
abissal

vem antes da terra e do fogo
toda história tem
mágoas mas
inimigos precisam se olhar no olho
admito eu
desfruto
desse tremor que me aflige e faz dançar
(até o corpo virar
um rosnado)
quando ela chega e traz consigo
a nossa bagagem suja
turva como o corvo
que aprecia o veneno e
assombra quintais afora
levando um escorpião
no bico

vejo lou reed vivo
cantando john lennon
que está morto:
uma homenagem, yoko, amor atrás
mas lou reed também está morto
quando ouço
a sua homenagem ao ciumentão que tremia por dentro
e suas pernas encouraçadas
não tremem mais.
eu, eu tento capturar seus olhos ou
sirgar o velame mas
(ana cristina cesar também está morta)
ele foge.