tour de force

você me assusta, ele disse,

é quase uma bruxa

o que você fez, ele disse,

não tem desculpa

eu descobri, ele disse,

a sua farsa

quem me contou, ele disse,

não mentiria

como você, ele disse,

que é sinistra

manipuladora, ele disse,

ou foi manipulativa?

não quero vê-la nem ouvi-la, ele disse,

preciso me proteger de você

preciso me proteger de você, eu disse antes

antes ele disse somos tão parecidos

antes ele disse quero viver isso contigo

antes ele disse mas eu namoro

antes ele disse senta na minha cara

antes ele disse vamos encontrar

antes ele disse quantas roupas temos pra trocar neste inverno!

antes ele disse vamos encontrar no centro da cidade

antes ele não disse vou com a minha garota

antes ele também não disse vou fazer você andar junto comigo e a minha garota

antes ele não disse então você vai querer fugir e eu vou perguntar o motivo de você partir

tão cedo

antes ele não disse que enquanto isso fariam uma roda em volta de nós

antes ele não disse que diriam: beija! beija! beija! e a garota dele do lado de fora querendo

cuspir fogo

antes ele não disse que nos limites da paixão o ódio reside

preciso me proteger de você, eu disse, pensando

preciso fazer com que ele precise se proteger de mim, pensei,

assim estará acabado

eu menti, eu disse,

não precisa me desculpar

apenas me ouça, eu disse, ele disse não

ouço não quero

preciso me proteger de você ele disse então pensei

eu consegui!

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Festival Agora É Que São Elas

Estaremos dentro da programação de um grande evento: o Festival AEQSE que terá sua primeira edição no dia 12 de agosto, das 10h às 20h, no Unibes Cultural.

O evento é gratuito e realizado pelo Coletivo #AgoraÉQueSãoElas. Além de leituras de poemas, terá exposição, debates, oficinas, mostra de filmes, entre outras atividades super interessantes.

Para ter acesso à programação completa, clique aqui.

Abaixo segue a divulgação das poetas que vão ler no dia.

image

[Seus braços em volta de mim toda a noite] de Elise Cowen

Seus braços em volta de mim toda a noite
Acordei para me ver ali
Comprimida
Assustada
Desconhecendo o que você abraçava
Comprimida assustada
Pela ternura me abraçando
E uma vez que meus olhos se abriram
A criação
Irrompia pelo seu rosto
Na hora do gozo,
Não sabia que você parecia assim

Sozinho.
O tempo.
Tudo aquilo que amo, que preciso ser
Esconde-se em você.

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Your arms around me all night
I woke to find me there
Cramped
Frightened
Not knowing what you held
Cramped Frightened
By the tenderness holding me
And once my eyes opened on
Creation
Tearing through your face
In the act of come,
I didn’t know you looked like that

Alone.
Time.
Everything I love, I need to be
Hides in you.

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Elise Cowen em uma tradução imediata

destruição do boy


eu não te suporto e não suporto

a energia gasta em preencher
vazios que você me deixa
eu não te suporto tampouco teu corpo
te suporta porque é de plástico
e rejeita
a tessitura dos eventos, da vida
regurgita
tão grande oferta
que vem de dentro expondo
até o osso
porque teu corpo é uma cova e não posso mais morrer ali
num destampado de pedra tão oco
é sempre tão pouco exceto quando viramos a chave
ao contrário
quando tontos nos dispomos ao espelho
e observamos a casca a carapaça
do teu esqueleto quase tão próximo
do meu mas não!
outra vez o engano eu já não sei
da matéria que me contempla?
e não te suporto
porque não é inteiro
entorta
com um mínimo tropeço
empena
como uma porta
vagabunda
que insiste em ficar
entreaberta

bom retiro

agora serei leve
ganharei o ar
e o ruído
a fissura
destas paredes novas
distrai o vazio
destas mobílias todas
estranhas
e acordar dentro delas —
a solidão
destoa
de toda a proposta
da sorte, do peixe chinês
inquieto, pendurado
na varanda
um teto todo meu e no banco
um fantasma
na fronha
um fantasma
mas às vezes
por dentro acontece de ser
dia, como é lá fora
e brilha
entre os cacos de espelho na calçada
uma vontade  de existir e voltar
à rua e ver
velhinhos coreanos
lambendo uma casquinha
de baunilha
eles só ficam ali
calados
e entre uma lambida e outra
o dia passa
sem ele
por aqui

caminhada

 

estamos no meio do caminho
um homem segue com a sua carroça
ele está cansado
eu estou cansada
procuro um passo
que não me custe tanto as pernas
(não posso mais sentir o peso da minha própria cabeça)
o sol a pino
ele já está longe
só agora vejo
que se arrasta apenas por uma roda
com a outra estourada — o pneu murcho
gasto
e por cima a sua casca
esgarçada
não ouço mais o que dizemos
pesa
estaríamos assim tão derrotados?
ou desertamos
e perdemos a guerra?
agora uma mulher dá banho em seu bebê
no chafariz da praça
a água é suja?
lava a cabeça, os cabelos, ele sabe
como ela ama lavar seus cabelos
você sabe?
a espuma nos ombros
escorrendo pelos braços
a sua pele! como é bom
tocar a sua cabeça — ele confia
mesmo que o chafariz lhe confunda
com tantas águas
lembra
do banho de xampu?
que espetáculo é Elizabeth
lavando os cabelos de Lota!
estrelas, uma constelação de espumas
e o ato é de amor, amor
lembra?
você já falou — lava meus cabelos
coça as minhas costas
e fechou os olhos e se virou
e se agachou e se entregou a mim
como a criança do chafariz
está nas mãos de sua mãe —
agora ele se enrosca
está suspenso no ar, com frio
quando tocar o chão
vai estar quente de novo
e um pano — nem tão macio —
lhe cobrirá a pele.

 

pra que recauchutar
essas memórias fumegantes
se a noite já está acesa
e acontece
que tudo isso vai matando
de dentro pra fora até virar
socos na porta
do banheiro e dos carros na rua que não são
o teu e na namorada que não é
mais a tua — a atual
não presta — eu
saberia
me ajoelhar nessa reza
ou gritar mais um pouco o suficiente
para não ouvir nada
o som da noite é estridente e salva
só a fúria
que pressente todas as chegadas
e vou relando no chão torto e amarelo
dando a cara a tapa a outros mortais
tão mortais que só assumem um delírio cênico
não
este buraco se cava na altura do interior
e o delírio aqui é uma realidade que atravessa o dia
o ar
as palavras
em toda a sua densidade emocional
(como reuben já dizia)
e come consome
tudo o que não deveria — a pose
a casca se rompe e o que salta
é essa coisa que ninguém aguenta
essa coisa mata